domingo, 8 de outubro de 2017

Hokusai -- Anne Carson




A raiva é um cadeado doloroso
mas que pode ser aberto.

Hokusai, 83 anos,
disse,
é hora de fazer meus leões.

Todas as manhãs
até sua morte

219 dias depois
ele desenhou
um leão.

Rajadas de vento sopravam do noroeste.

Leões balançavam
e saltavam
do alto

dos pinheiros
para as ruas

cobertas de
neve ou se
estatelavam

sobre a cabana dele,
as patas brancas

ferindo as estrelas
ao cair.

Eu sigo desenhando
em busca
de um dia calmo,

dizia Hokusai
enquanto os leões tombavam.




**

(do livro "Men in the off hours")

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Câmera lenta [2017]


Câmera lenta
[São Paulo: Companhia das letras, 2017]
Leia o poema-abertura, "Hola, spleen", na revista Piauí de agosto


* resenha do livro, por Juliana Bratfisch, na Folha de S. Paulo


***


Texto de orelha do livro, por Ítalo Moriconi


Neste livro, Marília Garcia avança em sua pesquisa poética, uma das mais consistentes no cenário atual da literatura brasileira. Poesia que permanece em aberto. Poesia do processo, mais que da obra acabada. Sempre em movimento, em viagem, entrelaçando motivos em múltiplas espirais de linguagem, fragmentos de narrativas. Se o livro como um todo retoma fios que percorrem o conjunto da obra da poeta, leitor e leitora verão que a última parte deste Câmera lenta, intitulada “epílogo”, opera como uma conclusão, brincando com a vontade de decifração. Vale a pena percorrer toda a sequência de poemas até chegar lá.
Não tenhamos dúvida: na escrita de Marília Garcia, o poema é campo de experimentações. A própria leitura deve ser exercício de exploração. A repetição diferida encena o ir e vir de memórias presentificadas. O texto aqui é tecido propositalmente descosturado, desalinhando e realinhando ecos e impressões sonoras, visuais, afetivas. A recostura é operada pela autorreflexão -- reflexão sobre o ato de escrever no momento em que ele se dá.
            Na poesia atual, todo poema mantém relação constitutiva, de espelhamento, com sua sonorização, seja ela mental ou concretizada na oralização. A voz da autora singulariza-se por dialogar com os meios de sonorização eletrônica. Não apenas para usá-los em performances, ou falar deles, mas para buscar, por analogia com seu modo de produção, modelos formais para o poema. 
O mesmo se aplica à relação da poesia de Marília com objetos do mundo técnico, como os resistores, em livro anterior. Neste agora, as hélices. Estas aparecem como motivo motor do livro, de aspectos de sua enunciação. Porém, o que a poeta retira das hélices é sobretudo a forma helicoidal. O método compositivo aqui é dado pelo loop (tanto o eletroacústico quanto o aéreo), pela estereofonia, pela espiral. Poética desbravadora, sofisticada, antenada.

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leitura do poema "hola, spleen"



sexta-feira, 28 de julho de 2017

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Filosofia – Jaroslav Seifert

Lembre-se dos sábios filósofos
A vira dura só um instante
Mas quando espero minha namorada
É uma eternidade

segunda-feira, 3 de julho de 2017

"O que ela vê quando fecha os olhos?" -- Marília Garcia




trechinho do poema "Pelos grandes bulevares" (do livro novo! em produção)
com algo de gertrude stein, de anohny, de godard e da via dutra...

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Por que não sou pintor? – Frank O'Hara





Não sou pintor, e sim poeta.
Por quê? Acho que eu preferia
ser pintor, só que não sou. Bem,

por exemplo, o Mike Goldberg
está começando um quadro. Vou lá.
“Senta e bebe alguma coisa”, ele
diz. Bebo. Bebemos. Eu olho
pro quadro. “Você escreveu SARDINHAS.”
“Tinha que pôr alguma coisa ali.”
“Ah.” Os dias passam e eu
vou lá de novo. O quadro avança,
eu vou embora, e os dias vão
passando. Eu volto. O quadro está
pronto. “Cadê SARDINHAS?” 
Só ficaram umas
letras. “Era demais”, diz Mike.

Mas e eu? Um dia eu penso numa
cor: LARANJA. Escrevo um verso sobre
laranja. E logo é uma página
inteira de palavras, não versos.
Depois outra página. Devia
haver muito mais, não laranja, mas
palavras, sobre o horror do laranja e
da vida. Os dias passam. Está até
em prosa, sou poeta mesmo. Meu poema 
está pronto, e ainda nem falei em
laranja. Doze poemas, e o nome é
LARANJAS. E um dia numa galeria
vejo o quadro do Mike: SARDINHAS.

tradução de Paulo Henriques Britto

do livro Meu coração está no bolso
cuja capinha abre o post
traduzido por Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto

quarta-feira, 22 de março de 2017

Meu namorado é cineasta — Paulo V. Santana




acordo
engasgado com um poema, cumpro um ritual
– não há espaço para a poesia


ando na rua, pego um ônibus, vejo pessoas
pessoas falantes, sonolentas, arrumadas, bagunçadas
– será que elas têm poesia?
(na boca? na cabeça? na bolsa?)


chego no colégio cedo, vejo colegas preocupados
não por causa disso, poesia, mas pelo teste
que vai acontecer
a primeira aula não acontece, a professora de literatura está doente
– muita poesia tem efeito colateral?


o tempo passa, o teste chega, a ansiedade grita
finalmente escrevo
escrevo números pensados por outras pessoas
escrevo cálculos tão elaborados que são quase poesia
quase
– o que define poesia?


hora do recreio, dia de profissões
(quase) todos vestidos do que “vão ser quando crescer”
meu namorado é cineasta
minha amiga é cineasta
minha outra amiga é fã de música coreana
– há poetas entre médicos, jogadores de futebol, professores, artesãos?


aula seguinte de francês, lemos textos sobre acontecimentos inusitados
quebras de rotina que são como poesia
– é possível uma rotina com poesia?


no fim da aula, encontro meu namorado numa oficina de literatura
ele encontrou poesia
ele ouviu poesia
ele escreveu poesia
lembro do poema que estava preso na garganto
o incômodo volta
– meu namorado é poesia?


almoço do dia: arroz, feijão, carne (sem batata) e conversas
conversas sobre aulas
sobre relacionamentos
sobre faculdade
não sobre poesia
– o que eu sei falar sobre poesia?


depois, meu namorado diz que tem algo a me mostrar
o poema Navio Negreiro, do Castro Alves
começo a ler, até que percebo que são seis páginas e paro
esse aqui tem só três
– consigo fazer mais?


chegou a minha vez de fazer a oficina
dessa vez é numa sala de espelhos que já viu muitos dançarinos
acho que a literatura encontrou o seu lugar
– existe lugar certo para a poesia?


enquanto ouço meu professor ler poesia,
escrevo um poema na cabeça
gosto do que chega os meus ouvidos
e do efeito que essas palavras têm em mim
– qual a diferença entre ler e ouvir um poema?


começo a escrever este poema
vermelho traduz o meu sangue
a mão que escreve é a mão da punheta
– é biologicamente possível gozar lendo um poema?


estou atrasado, preciso terminar este poema
todo poema tem seu fim
mas a poesia (ou não) está sempre por aí
ainda sinto um incômodo na garganta
o poema que estava (e está) entalado é outro
– como se livrar do peso de algo não escrito?



(escrito sob efeito de “blind light”, em maio de 2015)



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conheci o paulo santana aqui em são paulo
e ele me deu essa plaquete de 2015
cuja capinha abre o post
livro que cabe na palma da mão: 
"meu namorado é cineasta"

de vez em quando posto aqui uma série de "poemas-que-conversam-com-o-teste de resistores"

e é uma alegria retomar a série com o poema do paulo
que vai sendo pautado por tantas perguntas

o paulo fez esse poema em maio de 2015 em uma oficina com o luis guilherme barbosae em junho de 2016 ele escreveu uma resposta 

ao seu próprio poema, que segue abaixo.


o paulo v. santana eventualmente posta no blog estacaodonada.blogspot.com.)

o paulo v. santana tem 19 anos e é mais um carioca morando em são paulo


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poema-resposta
(junho de 2016; resposta à plaquete “Meu namorado é cineasta”)


nos seis meses que passaram
ninguém nasceu
mas muitos morreram


a busca pelo (meu) lugar da poesia continua
encontro na cidade
uma outra cidade


é como ele disse
são paulo é o texto que eu escreveria


a voz que dita poesia mudou
a mão que masturba não escreve
ainda não li Navio Negreiro
agora o feijão é carioca


meu namorado não é cineasta
meu namorado não é meu namorado
meu namorado não


e
dos poemas que escrevi
talvez
eu
não
seja
(o)
escritor

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Sra. Darwin – Carol Ann Duffy

7 de abril de 1852
Passeio no zoológico.
Eu disse a Ele –
Alguma coisa naquele Chipanzé ali me lembra você.




*




"sra. darwin" é um poema deste livro "the world's wife" (cuja capinha está aí em cima)
todo feito com poemas na voz das "esposas".
a carol ann duffy é uma poeta escocesa que nasceu em em Glasgow, em 1955.
ela começou a publicar nos anos 70 e tem algumas dezenas de livros