segunda-feira, 6 de Outubro de 2014

Um teste – Thiago Gallego

ontem à noite comecei a ler o livro novo da marília garcia

um teste de resistores
comecei a ler pelo último poema
a poesia é uma forma de resistores?
comecei a ler pelo último poema porque já tinha ouvido uma versão dele
lida pela marília na casa de leitura dirce côrtes
no humaitá
e tinha vontade de ouvir de novo
acontece que quando li o último poema
a poesia é uma forma de resistores?
não era a minha voz na minha cabeça
que lia o poema
era a voz da marília nos encontros
da casa de leitura dirce côrtes
e hoje no ônibus quando comecei o primeiro
poema e o que vem logo depois dele
ainda era a voz da marília na minha cabeça
fiquei fascinado pela ideia de ler com uma voz e um ritmo
tão diferentes do meu
fiquei fascinado e imaginei que todo o livro seria isso

desci do ônibus pensando com aquele ritmo aquela voz e escrevendo com eles
também
passei o dia assim

ao contrário do que eu esperava
conforme avançava
no anfiteatro da puc
em outros dois ônibus
a voz na minha cabeça foi se tornando um híbrido
entre a da marília e a minha
ora era como eu e quase só eu
lendo
ora era a marília
mas na maior parte
um dueto

escrevo com algum medo de que soe uma tentativa
de imitar texto tão vivo
ainda assim escrevo
num híbrido algo tosco
de vozes
porque acho bonito
muito bonito
quando uma coisa dessas
um ataque direto do poema no corpo
feito bactéria
acontece

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no dia 22 de agosto de 2014
recebi um email do thiago gallego com este poema
o thiago gallego explicava no email que estava lendo um teste de resistores
e que no calor da hora tinha feito esse teste
depois recebi outros poemas que dialogavam com um teste de resistores
e por sugestão do dimitri (que também fez um) 
vou reunir esses textos-testes aqui 
fazendo uma espécie de antologia-em-diálogo.
o thiago gallego é carioca, estuda cinema 
e é um dos editores da bliss não tem bis http://blissnaotembis.blogspot.com.br

sábado, 4 de Outubro de 2014

Epopeia, uma aventura de Batman -- Christophe Fiat


À noite,
em Gothan City,
tudo é imenso
tudo acontece
no infinito
das aventuras
do Batman.
Vemos apenas
as chamas
e as imagens
se sobrepõe
como as tantas
manchetes
que anunciam
as mudanças
feitas
na cena do crime.
Numa das manchetes
lemos
EU VOU MATAR VOCÊ!
e entendemos
ELE DIZ QUE VAI MATÁ-LO
Então Batman faz sua ronda
como um animal
no grande cenário
natural
de Gotham City,
Batman fala pouco.
Sua voz responde.
Ela é rápida
atonal
plana
horizontal
neutra.
Batman tem
a loucura comum
aos aventureiros
que tratam
a noite
como um inferno.
Batman diz BANG!
BIFF! CRUNCH! ZAP!
Se Batman fala pouco,
ele bate muito
Muitas vezes ele mata [...]

Quando Batman
diz sim!
E faz BANG!
BIFF! CRUNCH! ZAP!
Batman passa à ação
Então a noite
de Gothan City
se ilumina por um instante
com as chamas da ação
de Batman
Então ele está
no auge
da sua vida mítica-real
que avalia
todas as transformações
ocorridas
como as transformações
de um homem
em morcego.
O problema
de Batman
é que nunca sabemos
se estamos
em um filme de criminosos
ou num filme policial
porque
quando Batman bate
ele passa sem distinção
da situação ao duelo
(filme de criminosos)
e do duelo à situação
(filme policial).
Para Batman
todas as ações
são cegas
e todas as situações
são obscuras
e a noite
de Gotham City
é o teatro de operações
de uma catástrofe
que chega
como uma canção
e que atravessa os lugares
e as pessoas.
Batman
tem o senso prático
desenvolvido
É preciso lidar
com o tempo
É preciso entrar
na engrenagem
da noite
É preciso
abolir o tempo
É preciso
manter
a velocidade
de propagação
de uma imagem falsificada
por quanto tempo for possível,
sideral
e siderado e siderante
que se reparte diretamente
no rumor
das chamas
e das brigas de rua.

Na manchete
lemos
EU VOU MATAR VOCÊ!
e entendemos
ELE DIZ QUE VAI MATÁ-LO
Então sabemos
que se refere ao Batman.
Mesmo que seja
só uma frase
"EU VOU MATAR VOCÊ ELE DIZ QUE VAI MATÁ-LO"
circulando pela
noite de Gothan City
e que se propaga
numa frequência
situada entre 20 kHz
e 120 kHz
mostrando
as aventuras
entre os personagens
independentes
(Batman
e os super-herois
e os policiais
e os bandidos)
e os lugares separados
(todas as ruas
e todos as praças
e todos os prédios
de Gothan City).




este é um excerto do livro
Épopée, une aventure de Batman, publicado pela al dante, niok, em 2004,
e que eu li na antologia Sac à dos, une anthologie de poésie contemporaine pour lecteurs en herbe, organizada por Jean-Michel Espitallier

domingo, 31 de Agosto de 2014

QQQQQ (excerpt A-Because) – Lenka Clayton



a lenka clayton é uma artista britânica (n. 1977). 
a lenka clayton pôs em ordem alfabética 
o discurso do Bush sobre o terrorismo de 29/01/2002.
o nome do trabalho (qqqqqq) é um trecho da ordem alfabética: 
qaeda quality question quickly quickly quiet 
o bush diz america/ns em torno de 60 vezes

segunda-feira, 21 de Julho de 2014

O terremoto enquanto ela dormia – Mary Jo Bang



Ela dormia durante um terremoto na Espanha.
No dia seguinte, tudo ficou cheio de coisas mortas. 
                                                                        [Bom, não cheio, mas com algumas coisas.
Diante da porta da frente, sentiu um estalo de carrapato

debaixo do pé. No banheiro, uma barata enorme deitada
com as patas pra cima na beira do mármore; a antena
morta anunciando o futuro, virada na direção do olho prateado

que depois iria tragar a água com a qual ela lavou o rosto.
Quem não gostaria de voltar rápido
para o sono da noite anterior? Sabia que tinha que seguir acordada

e enquanto caminhava pela névoa cinzenta do dia, enganava o vaporoso
encenando algo concreto: a fumaça do cigarro,
por exemplo, poderia se transformar em um edifício de Lego de 2 cm

visto da janela de um ônibus que bloqueava uma rua.
Às vezes, as pessoas pensam em si mesmas como uma foto que coincide
com um desejo inventado: uma floresta de brinquedo, um grilo mutilado, o mais

ou menos precioso lótus. Na noite antes do terremoto, tomou um trem
para ver uma ópera cômica com um enredo inverossímil. Reparou num homem
com casaco curtido e gravata que lembrava muito o Kafka.

No dia seguinte, ligou para um amigo para reclamar dos insetos.
De uma cidade distante – a voz baixa e em tom de lamento –, ele disse,
Você não está bem? Quer que eu faça alguma coisa?





mary jo bang nasceu em 1946, nos estados unidos.
este poema de mary jo bang será publicado no livro the last two seconds
ainda no prelo em inglês
mas já saiu (e foi onde eu li o poema e também onde li a mary jo pela primeira vez)
na linda antologia, essa aí da foto em cima, El clarooscuro del pinguino, traduzida para o espanhol por aníbal cristobo e patricio grinberg e publicada pelo aníbal cristobo na kriller71 edicciones.
minha tradução foi feita, ao mesmo tempo, do inglês que vem no rodapé dos poemas e da versão em espanhol. por ser o espanhol mais próximo do português e por eu ter lido essa versão antes do original, será que posso dizer que fiz uma espécie de cotradução? de todo modo, usei soluções da versão espanhola, então aqui está o crédito e agradecimento aos tradutores amigos. e aproveito o post para dar parabéns aos 2 anos da kriller71 ediciones e agradecer por essas maravilhas que ela vem fazendo...


domingo, 20 de Julho de 2014

Encontro – Harold Pinter



Nas horas mortas da noite

Os que há muito estão mortos olham para
Os novos mortos
Que avançam até eles

Há um leve bater do coração
Quando os mortos abraçam
Os que há muito estão mortos
E os que entre os novos mortos
Para eles avançam

Choram e beijam-se
Quando voltam a encontrar-se
Pela primeira e última vez


Tradução de Pedro Marques, Jorge Silva Melo e Francisco Frazão
poema copiado do livro Guerra, da Quasi edições.