domingo, 20 de março de 2016

Wall drawing 118 – Sol Lewitt



Numa parede, qualquer pedaço contínuo de parede, usando um lápis duro, faça cinquenta pontos ao acaso. Os pontos devem ser distribuídos com equilíbrio pela superfície da parede. Todos os pontos devem ser conectados com linhas retas. 


https://www.youtube.com/watch?v=RDrHHsez3nU

quinta-feira, 17 de março de 2016

Para ver as meninas – Paulinho da viola



Silêncio por favor
Enquanto esqueço um pouco
a dor no peito
Não diga nada
sobre meus defeitos
Eu não me lembro mais
quem me deixou assim

Hoje eu quero apenas
Uma pausa de mil compassos
Para ver as meninas
E nada mais nos braços
Só este amor
assim descontraído

Quem sabe de tudo não fale
Quem não sabe nada se cale
Se for preciso eu repito

Porque hoje eu vou fazer
Ao meu jeito eu vou fazer
Um samba sobre o infinito
Porque hoje eu vou fazer
Ao meu jeito eu vou fazer
Um samba sobre o infinito

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

[quando seu aparecido chegou] – Sofia Mariutti




quando seu aparecido chegou
eu não costumava levantar pra fazer café
fatiar pão passar manteiga
eu ficava na cama até o último minuto
e o último minuto quase sempre
já era tarde demais
quando seu aparecido chegou
pra trocar o carpete
do condomínio edifício luciana
apareceu também a primeira barata
dentro do apartamento quatro
do condomínio edifício luciana
eu liguei o aspirador de pó e nós duas
guerreamos por meia hora e eu venci
com covardia depois de estraçalhar
o corpúsculo dela com o cabo
de vassoura dei mais alguns golpes
pra garantir o extermínio
o talentoso ripley mata o amigo
no barco com o remo
nem tão talentoso
ripley mata o amigo
com mais golpes do que o necessário
pra matar um amigo quantos golpes
são necessários pra garantir o extermínio
de alguém que amamos muito?
quando ripley mata o amigo
há paixão no assassinato
será que há paixão
entre a barata e eu?
clarice diz que para matar baratas
é preciso misturar farinha e açúcar
para esturricar o de-dentro delas
já sobre a morte do mineirinho clarice diz
“o décimo terceiro tiro me assassina”
com covardia
“o décimo terceiro tiro me assassina”
mais golpes do que o necessário
“o décimo terceiro tiro me assassina”
pra garantir o extermínio de um facínora
“o décimo terceiro tiro me assassina”
há paixão no assassinato
“o décimo terceiro tiro me assassina
porque eu sou o outro” eu
é um outro eu
quer ser um outro
mineirinho gregor samsa barata
seu aparecido 
quando seu aparecido chegou
eu morava há três meses no edifício luciana
e sentia falta de alguém pra conversar pela manhã
o seu aparecido me fazia levantar mais cedo
fazer café fatiar o pão assado na véspera
passar manteiga essas coisas todas
que eu não fazia antes
mas eu só me atrasava mais
conversava com seu aparecido
depois escrevia sobre ele
por que escrevo no passado
se estou no presente e o seu aparecido
está aqui ao lado?
hoje é o último dos três dias
da colocação do carpete e o presente não é memória:
o seu aparecido vai me deixar e nunca mais
vou vê-lo, franzino, com as mãos deformadas e feias
por que escrevo em versos
empilhados essa história?
talvez porque li os poemas narrativos
da marília garcia
e me deixei influenciar por ela
o seu aparecido tem setenta e cinco anos
quarenta de experiência com carpetes
o seu aparecido aceita café, aceita açúcar,
aceita pão, aceita manteiga,
pede pra eu deixar gorjeta, aceita um band-aid
que eu ofereço quando vejo a mão dele sangrar
o seu aparecido é do tipo que nunca diz não
não diz não
o seu aparecido reclama dos novos trens
comandados pelas máquinas
assim vai acabar o emprego dos homens
ele sabe que o emprego dele não está ameaçado
não há máquina que faça o meu trabalho
é uma autoridade dos carpetes empoeirados
trabalha como autônomo para várias lojas da cidade
já na casa dele na freguesia do ó não tem carpete
ele nem gosta de carpete
não gosta mesmo
o seu aparecido


**

a sofia mariutti é paulistana e fez letras-alemão na usp.
a sofia mariutti escreve palíndromos e anagramas 
(alguns estão no seu blog http://miafurtasitio.tumblr.com/)
a sofia mariutti é editora da companhia das letras.

o ano estava terminando

e eu resolvi encerrar essa série de conversas com o teste de resistores
mas depois recebi o poema da sofia
e continuei pensando nas linhas vão ligando os poemas 
e fazendo a gente conversar e a seguir um ritmo 
e então eu começo o ano retomando a série 
com esse poema sobre o seu aparecido
(muito preciso
aliás
para essa semana de mudança 
em que ando às voltas com carpetes 
e sintecos e 
baratas)

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Um amigo do tio -- Roberta Iannamico



Um amigo do tio
grandalhão
deitado na areia
um cachorro o acorda
se jogando em cima dele
me interessa principalmente
a parte em que o cara faz carinho
no cachorro
sarnento
cobrindo a mão
com as mangas do pulôver.

domingo, 4 de outubro de 2015

depois da marília – fabio saldanha






eu acho que a conexão da internet
quando falha
é um sinal claro
daqueles que a gente interpreta
como se dois mais dois pudesse
realmente dar peixe
eu acho que é nesse momento em que
a minha vontade de escrever
um poema narrativo
volta
na verdade a vontade
de escrever um poema narrativo
me persegue há muito tempo
 eu não sei se eu consigo escrever um poema
narrativo
e eu não sei se consigo porque
desde que eu fechei  o teste
com aquele NÃO em letras maiúsculas
eu fico duvidando da minha capacidade
de acabar narrando alguma coisa
que pudesse ser material poético
e eu sempre vou esquecendo
que a ideia do processamento
a partir da narração
vem da vontade de não apagar
os brancos que ficam
entre a minha parte do silêncio e
a sua –
(e na verdade eu cansei
de poemas que me dizem
só a respeito do que ficou
em um espaço
entre dois brancos
entre dois silêncios
entre o espaço da minha
boca na sua)
eu não sabia o que
poderia acontecer
quando eu fosse tentar
escrever o meu poema narrativo
mas a internet falhou
então eu escolhi
escrever agora
a respeito
dessa narratividade
porque
apesar de ser um pouco apagado
para a crítica em português
a ideia do –idade
como em –ivity
de subjectivity
traz consigo
o fazer
o escrever
essa ideia de que existe
algo fabricado
dentro da
por exemplo
subjetividade
eu venho filmando
ideias na minha cabeça
e esse poema
acabou sendo muito diferente do que
eu imaginava
eu agora tenho um problema na garganta
eu agora quero chorar a minha
garganta para fora
eu agora não sei se fico
ou vou embora porque
a ideia de me manter preso
em um único ponto
que me presentifica
dói
(e dói porque
a ideia do meu presente
ainda me liga diretamente
a todas as narrações que eu construo desde
o ano passado
 já faz um ano eu diria 
para ele se ele se importasse
se ele se importasse
talvez ele já soubesse
que eu lanço um livro cheio de poemas
para ele e ainda fico com essa coisa na garganta
porque aparentemente a ideia
dele não me sai da cabeça)
durante muito tempo eu me importei
em tentar tirar dos poemas que escrevia
os famosos lugares comuns
 mas não aqueles que fossem de fato
tidos como lugares comuns
da poesia enquanto gênero no senso
comum e coisa e tal;
eu dizia dos meus poemas
daquilo que eu escrevi
e em cento e vinte páginas
enviei;
eu me preocupava em saber
se no fundo
eu conseguiria dizer
para o leitor
aquilo que eu acredito ser a minha noção
de poesia
de literatura 
pra mim
a literatura
te mantém dentro do texto
e depois te tirar de lá
aos socos e pontapés
como somente
no início do ano
o NÃO da marilia
foi capaz de fazer
e desde então
eu persigo essa ideia de narrativ
idade
tentando
de alguma maneira
narrar algo que nos atravesse
mas ele me dirige os nervos
como um ônibus
enfurecido
no meio da cidade universitária
como fazem os motoristas
da última semana
quando eu
consegui:
bater as canelas
segurar na mão de um moço
                                    de quem não sei nem o nome
quase cair
deslizar para a ponta do banco até perceber que
a proteção que me separava do chão
estava levantada
                                    quase cair de um banco
num ônibus em alta velocidade
me faz lembrar
daquilo lá de cima
da literatura
                                    é a expulsão
é a expulsão ética
é a expulsão da geruza
eu continuo a pedir desculpas
enquanto percebo que não consigo
parar de performar autopsias
nas coisas que já sentia resolvidas
até que vi uma mensagem
(e mesmo que muitos
ainda considerem as redes
sociais como
um lugar
meio estranho)
estampada
n’um retweet que dizia
se agora me lembro
as pessoas que não saíram da sua
vida ainda tem alguma coisa
para te ensinar a respeito dela
 e eu acredito que nasça aí o problema
já que o que eu queria
era ser expulso da
vida que eu levo
e da narrativa
que eu venho construindo há um ano
talvez isso não valha a pena
e talvez o NÃO do teste ainda <não>
tenha sido de fato considerado por
mim um texto fundador
como uma raíz que faria de fato
algo mudar em mim
 mas isso me faz lembrar
que mesmo a raíz plantada
após o teste
nunca garantiria um resultado
igual, idêntico
semelhante
ao NÃO da marília
ele poderia me garantir um talvez
ou mais algum tempo
chorando enquanto eu ouço
pela quarta vez
a matilde lendo
conversa de fim de tarde após três anos de
                                                                             exílio
e dia dez
                                                             e eu mandei para ele
esses poemas
e ele agora
relembra e chora
como eu chorei
no minha pátria, minha língua
ao filmar
ela lendo pela primeira vez
(ninguém do meu lado
que estava comigo
conhecia a obra dela
somente trechos
somente traços
e isso foi suficiente
para que eu pedisse um abraço bem forte
ao sair daquele shopping
na faria lima
por não conseguir sequer saber
qual era o caminho de volta para
o metrô)
talvez essa narrativa
se baseie no único
fato de eu talvez não saber narrar
talvez o teste fosse mesmo
essa abertura que eu não esperava
e desde o início
eu disse

SIM





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o fabio saldanha nasceu em 1993 em são carlos.
o fabio saldanha faz letras na usp e mora em são paulo.
o fabio publicou, ontem, seu primeiro livro, minha quarta xícara de café, pela editora pautá.
incluo esse poema na série de conversas com um teste de resistores  que postei por aqui.
quando o fabio me mandou o poema, eu queria escrever um texto para encerrar a série falando sobre poemas que conversam e que vão se desdobrando paralelamente. espero escrever ainda. mas por enquanto, encerro a série por aqui com este generoso SIM.


sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Furograma para blind light – Gabriela Capper



a gabriela capper fez esse belo furograma para o meu poema "blind light"
re-ordenando e deslocando 
os lugares pessoas perguntas escritores acidentes procedimentos
que aparecem no poema
o que fica é o furo? me perguntei ao ver a palavra furo piscando em várias dimensões
ela me contou também dos diagramas do ricardo basbaum
e fiquei com vontade de fazer um post sobre ele

incluo o "furograma..." na série de conversas com um teste de resistores
(que me alegra muito por estar crescendo!)
e queria dizer que fico feliz por essa conversa ter
ido para o vídeo para o furo para o diagrama
por ela ser uma conversa numa língua que eu nem imaginava que existia
numa linguagem que eu nem imaginava que eu pudesse compreender
obrigada, gabriela, pela conversa em furograma