terça-feira, 8 de Abril de 2014

Picabia falsificado – Roberto Bolaño



O certo é que um dia tudo acabou e eu fiquei só com meu Picabia falsificado como único mapa, como único apoio legítimo.


in: Os detetives selvagens.

sábado, 5 de Abril de 2014

Ao som do vinil -- Valeska de Aguirre e Rodolfo Caesar

http://sussurro.musica.ufrj.br/abcde/c/caesarrodolf/20082009/poesia.htm

 “Não acredito que te perdi”
cochichou perdendo a faixa
da música que deveria colocar
para as pessoas não escutarem
o que gritava tentando cochichar
ao ouvido da garota que se despedia
e que pensou escutar
“não acredito que te perdi”
mas não pediu para ele repetir
pois já tinha ouvido o ruído da faixa
terminando e ele afastando-se
para posicionar a agulha em qualquer
outro círculo e assim ninguém
reparar na garota que ali permanecia
na tentativa de ir embora.



o poema e a voz são da Valeska de Aguirre
a peça musical do Rodolfo Caesar
e, tocando no vinil, um trecho de "dindi" de alaíde costa

sexta-feira, 4 de Abril de 2014

Retrato molhado – Jaroslav Seifert



Aqueles dias lindos
em que a cidade parece um dado, um hino, um ventilador
ou uma concha de vieira à beira-mar
– tchau, tchau, garotas belas,
nos conhecemos hoje
e não nos veremos nunca mais.

Os domingos lindos
em que a cidade parece um jogo de futebol, um cartão e uma ocarina
ou um sino indo e vindo
– na rua ensolarada
as sombras dos passantes se beijavam
e eles seguiam, completos desconhecidos.

Aquelas noites lindas
em que a cidade parece uma rosa, um tabuleiro de xadrez, um violino
ou uma garota chorando
– no bar jogávamos dominó, dominó de bolas pretas, com as garotas magrelas,
olhando para os seus joelhos

que eram esquálidos
feito dois crânios com as coroas de seda da cinta-liga
no reino desesperado do amor.

















Jaroslav Seifert nasceu em Praga, em 1901. 
Jaroslav Seifert faleceu em Praga, em 1986. 
Leia o poema "Um guarda-chuva de Piccadily" aqui.

sexta-feira, 27 de Dezembro de 2013

Moça de bicicleta – Francisco Alvim



O céu que é mais um mar sobre a cidade
os pés descolando-se do chão 
mergulho de um corpo em cores que são ventos
relva relva verde verde
pneus rilhando o saibro úmido
amarelas margaridas brancas

sons que lavam o ar

(O corpo: um sino ouvindo
e repetindo a paisagem)

quinta-feira, 26 de Dezembro de 2013

Faço perguntas sobre a diferença entre – Guillermo Kuitca



meu avô e minha avó
Silvio Rodriguez e Silvio Soldan
Deus e o Diabo e estes por sua vez com o Snoopy
uma moeda e a diferença desta moeda com outra
Rivadavia e a Av. Corrientes
Édipo e Julio Moyano Produções
Robert Rauschenberg e Robert Redford
Jorge e Luis Borges
Você e Eu
Paris e a capital da Alemanha Federal
Virginia e Eugenia
Estevão e Sebastião
o pão e a sacarina
um sainete e um entremez
Tia Ana e Peron
meus alunos e os seus
Guillermo Kuitca e eu
uma navalha e uma faca
durante e agora
o amor (em alemão) e o amor (em italiano)
o alemão e o italiano
esses dois pássaros que brigam
o Alvear Palace em Buenos Aires e o Hotel Carlitos em Assunção
a arte e as cartas
que diferença há entre Picasso?
o azul e o vermelho
Cézanne e eu
Uma fita cassete e outra
Que diferença há entre uma cassete dentro de uma xícara?
o vermelho e o violeta
Mondrian quando tinha a sua idade e você
[quando tinha a idade de Mondrian
2 e dois
MoMA e o de Buenos Aires
uma cadeira e o encosto
Habana e Havana
o concreto e a arte cimento
Ortega e Gasset
Romeu e Julieta
o minimal e a arte surrealista
a República Argentina e a Rue de la Paix
minha letra e a que eu tinha antes
what’s the difference between Porgy & Bess?
você e um quadro
uma rua e a outra
um cocô e o cubismo
a letra "e" e a letra "s"
um dó e um lá
minha mão e minha mão direita
uma placa dizendo pare e uma placa dizendo pare
que tenha ao lado um cão sem uma coleira scotch
ø e ö
Artforum e Artinf
Gudiño Kiefer e William Blake
os cafés San Juan e Boedo Antiguo
Callao e Santa Fé
A Bauhaus e a Pueyrredon
Woody Allen e Annie Hall
Crime e castigo de Dostoievsky
Gertrude Stein e seu retrato
Dorotea Bazal e Juana Azurduy
Theo van Gogh e Silvia Legrand
o retrato de Gauguin de Van Gogh e um auto-retrato de Van Gogh
os sete anões
o cu e a parede o
payo sola e o cerro cayo
o desprezo e a paz.




Guillermo Kuitca nasceu em Buenos Aires, em 1961. 
Guillermo Kuitca é um artista plástico argentino. 
Guillermo Kuitca teve sua estréia como artista no começo dos anos 80. 
Atualmente Guillermo Kuitca mora em Buenos Aires onde mantém um importante programa de bolsas, o Talleres Beca Kuitca, referência para jovens artistas.

A cartogafia, com suas linhas, traços, curvas, nomes, plantas e relevos parece ser o espaço em torno do qual toda sua obra transita. Nos anos 80, começou a pintar algumas séries de pinturas, como o "Ninguém esquece nada", composta de poucos elementos que se repetem como camas e pessoas viradas de costas e encurvadas. Também nesta década desenvolve trabalhos em que estão representados ambientes escuros, salas ou várias salas interligadas onde se passam cenas estranhas, com assassinatos, sexo e pessoas que parecem estar no limite da loucura. Em uma dessas séries, que aparece no vídeo acima, "O mar doce", ao fundo aparece projetada sempre a mesma imagem, uma das cenas mais conhecidas do cinema: a do carrinho de bebê despencando pela escadaria de Odessa, no Encouraçado Potemkin. Essas pinturas parecem tematizar de alguma forma o momento que vivia a pintura no final do século XX, em torno dos anúncios de seu fim. Pintar foi um modo de viver o luto pela morte da pintura. Kuitca acena para este gesto ao expor tais cenas confusas, com restos de narrativas, pessoas mortas, o carrinho de bebê despencando, cenas que parecem tiradas de um pesadelo, com registros que soam como o momento depois de tudo", pós-tudo, como se chegasse tarde demais ou se dissesse "não posso voltar atrás".

No final dos anos 80, Kuitca começa a elaborar um conjunto de trabalhos onde o eixo de variações temáticas é construído por diferentes mapas, usando como suporte a tela ou a superfície de um colchão. Trata-se de desenhos inconclusos, fragmentados, com os nomes geográficos alterados. Somam-se a esta série cartográfica, pinturas de plantas arquitetônicas de diversos espaços, tais como teatros e casas de óperas, ou layouts diversos, de capas de discos e diferentes documentos, como seu próprio currículo vitae.

Embora composto de séries e técnicas muito distintas, podemos traçar uma linha que relaciona as instalações de mapas sobre colchões às pinturas de plantas arquitetônicas, plantas de teatros, pinturas a partir de capas de discos e até mesmo seu "Tango nu", que é um exercício de cartografia dos passos de tango marcados com os pés sobre tela.

O poema traduzido acima foi publicado na Modo de usar & co. 1 e foi tirado de um catálogo do MALBA sobre a sua obra. O vídeo fiz a partir do mesmo livro e esse textinho saiu no blog da  modo. 

quarta-feira, 25 de Dezembro de 2013

Notas seletas do diário [6-7 de maio de 1950] – Louise Bourgeois


Você se preocupa com tudo o que faz.
Você desvia o olhar das coisas difíceis de fazer.
Você sempre inventa desculpas.
Você acha que está sempre certa.
Você carece de autoconfiança.
Você não enxerga o ponto de vista dos outros.
Você evita as pessoas, vive demais para dentro de si.
Você não tem uma finalidade na vida.
Você carece de interesse pelas coisas.
Você tem surtos de raiva.
Você circula por aí com cara de amuada.
Você descuida da sua saúde física, aparência.
Você não é tolerante e não tem controle sobre suas emoções.
Você é incapaz de amizade.
Você não consegue rir das situações e de si mesmo – 

Os artistas não se interessam pelo trabalho dos colegas,
eles se interessam por suas técnicas –


Os sentimentos expressos em formas ou valores – qualidades formais.O meu interesse por isto cria um modelo.
A técnica é uma escolha, livre, por que todo mundo não é artista?


Tradução Alvaro Machado e Luiz Roberto Mendes Gonçalves
in: Louise Bourgeois. Destruição do pai / reconstrução do pai. Escritos e entrevistas. São Paulo: Cosac Naify, 2000, p.56